segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Capítulo 4 - Fogo




Amor e ódio

Os raios de sol invadem a taberna por frestas que rasgam o ar iluminado corpos esquecidos de homens, mulheres, humanos e mestiços que a pouco bebiam e comemoravam. Mas calma, embora não pareça, eles estão vivos, pelo menos por hora. No meio desse manancial de todas estas carcaças estão Minus e seus companheiros. Pig ronca muito alto assim como alguns outros.
Kalays desce as escadas que dão acesso aos aposentos no andar superior e vai a cozinha esforçando-se para não pisotear ninguém, quando...
- Kalays-syr? Kalays-syr? – Um garoto pequeno e franzino chegou perguntando por Kalays. Essa terminação “syr” é usada pelos mais jovens quando chamam pelos mais velhos ou quando querem demonstrar respeito.
- Simon? O que houve?
- Meu pai pediu para que eu viesse chamar por syr para que o ajudasse em uma dúvida na obra.
Kalays larga as louças que estavam em suas mãos e vai acompanhado pelo menino. Chegando a obra logo é recebido pelo pai do garoto.
- Oh! Que bom que pode vir Kalays-syr. Veja. – Aponta para uma viga que está sustentada por duas colunas no meio da obra, mas uma das colunas está rachada.
- Sim. Tem papel e grafite? – O homem logo providenciou papel de fibra de morus e um pedaço de grafite em forma de lápis. – Qual o cumprimento da coluna?
- Dois metros e 30cm de diâmetro.
- É cimento de areia?
- Sim.
- Bom. Pelos meus cálculos para o peso médio dessa laje ela deveria ter, pelo menos, 50cm de diâmetro.
- Então vou ter que refazer?
- Infelizmente, sim.
- De qualquer forma eu agradeço, syr.
- Certo. Se precisar de algo pode me chamar.
- Agradeço.
Na volta para a taberna ele percebe uma menininha, de pele e cabelos tão escuros que refletiam a luz do sol, parada olhando para a árvore que é a única vizinha da taberna de Kalays.
- O que foi?
- Meu gatinho. – Apontou para o animal marrom e branco que estava em um galho.
- Eu não consigo subir lá, mas tenho uma ideia. – Logo ele volta com uma tigela de barro com leite e coloca no chão. – Chame-o.
- Mimih! Mimih! – Gato meche as orelhas, cheia o ar e logo desce direto para a tigela começando a tomar linguadas de leite como se não comesse a dias.
- Obrigada, syr.
- Cuide dela.
Ele entra e vai direto para a cozinha, mas percebe que Minus não está mais onde estava. Olha em volta e não o vê. Dá de ombros e volta a lavar as louças.
Eu sei onde ele está. Vamos subir as escadas e passar por esse corredor. Essa taberna parece bem maior por dentro, não é? Ali! Não vamos entrar, apenas vamos olhar pela porta entre aberta. Minus ainda não acordou, mas há uma mulher deitada com ele. Tem cabelos vermelhos e sardas no rosto. Abre os olhos e vemos seus olhos de um verde intenso. Ela tem um rosto muito belo.
Podemos ver em seus olhos duas crianças brincando na floresta. A menina cai e machuca o dedo do pé. O menino de pele marrom corre para buscar água e colocar em seu ferimento. Ele faz isso três vezes e ela fica tão feliz pelo que ele está fazendo que nem sente mais dor e mesmo assim observa enquanto ele cuida dela.
- Querido. Hora de acordar. Os pássaros já estão cantando.
- ....
- Querido? Querido?! – Ela estapeia Minus no rosto fracamente, mas logo muda de feição e acerta uma forte esbofeteada no rosto dele que acaba acordando atordoado.
- Ah! An? O que faço aqui?
- Você dormiu aqui.
- Não. Eu lembro... Mais ou menos de ontem e... Não.
- Tudo bem...
- Karlayne? É você?
- Sim. Que bom que voltou. Pensei que estivesse morto. Pode imaginar o quanto chorei. O quanto esperei por você por todo esse tempo?
- Desculpa. – Ele diz levantando da cama. Percebe que está nu então pega toalha que está sobre a cômoda e tenta cobrir o resto de seu corpo bem definido com as mãos. – Mas...
- Venha para a cama. – Ela tenta parece o mais sensual possível se contorcendo levemente sobre os lenções de seda cor-de-creme para convencê-lo. Sua perna forte mostra sua pele branca e com pequenas manchas de sardas o que parece chamar atenção de Minus já que sua pupila dilata.
- Karlayne. Acredite. Não é que eu não queira. Estou metido em coisas perigosas e vai piorar ainda mais então... – Ele para de falar ao ver o rosto dela triste. Olha novamente todo seu corpo dos pés ao rosto e... – Ah! Que seja! – Ele deita na cama e começa a beijar a boca da mulher. Sei o que está pensando, mas não podemos mais ficar aqui.  Ética. Espero que entenda. Mas isso não impede você de imaginar nada. Faça o que quiser.
Vamos descer as escadas novamente e ver se algo mudou. Parece que não. Todos ainda estão dormindo e ficam assim por mais de uma hora até que começam a acordar como zumbis em um filme de terror. Alguns permanecem sentados olhando para o nada como meio acordados e meio dormindo. Outros levantam-se e voltam para as suas casas. Pig levanta-se reclamando de dores no pescoço, Zorf continua dormindo e... Só agora percebi que N não estava aqui. Agora que ele entra pela porta vindo de “não sei aonde”. Nesse momento Minus desce as escadas e Kalays lança-o um olhar que o faz ficar envergonhado. Ele sorri, mas não comenta nada.
- Que bom que acordaram! Precisamos ir ao mercado fazer algumas compras e quero que me ajudem pois são muitas coisas. O que acham.
- Claro que sim. – Pig responde pelo grupo ainda lutando para abrir os olhos.
Depois que Argonis também se encontra acordado, eles se trocam de roupa. Minus finalmente encontra algo para vestir além daquelas mantas de nômades e agora veste um camisa e calças velhas de algum bêbado que havia deixado no bar. Os quatro caminham um pouco até chegar a entrada do mercado. Então podemos ver várias lojas de barracas de trocas com alimentos, metais, artesanato, músicos tocando os mais diversos instrumentos, desde alaúdes à antigos kotos japoneses. Como não há uma moeda nos Cinco Reinos tudo é comercializado por trocas, mas a população não necessita obrigatoriamente do que se ganha aqui já que parte do que é dado de contribuição a coroa é revestido em serviços para todo os cidadãos dos Cinco Reinos. Como a segurança feita no investimento dos exércitos e inclusive alguns privilégios de cada classe. Por exemplo, observe aquele automóvel muito rústico movido a carvão. Ele foi inventado a menos de cinco anos e logo se tornou algo imprescindível aos comerciantes que hoje recebem por uma pequena contribuição a mais, feita de uma de uma única vez, à coroa. Ou seja, todo cidadão mercador tem o direito de ter um automóvel. A maioria da população concorda e apoia essa ideia. Muitos incentivam que sejam poucos automóveis porque acreditam que a fumaça negra que eles soltam possa ser prejudicial e por isso eles ficam restritos somente a essa classe.
Eles caminham de loja em loja e Minus fica maravilha com aquele aglomerado de pessoas. Havia ficado impressionado no bar, mas ali havia uma proporção muito maior. Não demorou para o que era animação se tornar incômodo. Não pelo barulho pois ninguém ali competia para vender mais, nem pelas pessoas que vez por outra esbarravam nele, mas era como uma sensação de que aquela multidão de alguma forma esmagava ele aos poucos. Ficou feliz quando finalmente acabaram as compras e estavam a caminho da taberna.
Ao longe viram Karlayne correndo em sua direção com sua silhueta de quadris largos e cintura fina. A princípio pensavam que ela vinha correndo feliz por vê-los mas logo viram seu semblante de desespero.
- A Taberna! Está pegando fogo!
Os três correram rápido deixando Kalays para trás que ao chegar caiu de joelhos sem ação. Minus, N, Zorf, Argonis e outros ajudavam as pessoas que ainda estavam lá dentro a sair. Parte do teto desaba e nem todos que estavam lá foram resgatados ainda. Kalays permanece de joelhos, mas começa a rezar.
- Vamos Kalays. Isso não vai ajudar agora. Precisamos apagar esse fogo rápido.
- Estou cuidado disso. - E volta a rezar. – Sete Deuses, por sua imensa sabedoria e benevolência me amparem nesse momento de aflição. E logo começam a chegar outras pessoas vizinhas com baldes de água. E chama cada vez mais como se viessem de todos os cantos e logo o jogo é apagado.
Minus fica estarrecido ao ver que a atitude de Kalays pode estar ligada a aparição de tantas pessoas para ajudar. Por sorte muitos são resgatados com poucos ferimentos e não se ouve falar com pessoas mortas ou desaparecidas.
- Quem poderia ter feito isso? – Pig pergunta à Kalays na presença de Minus e Zorf.
- O rei? – Zorf pergunta.
- Quem sabe? – Responde, Kalays. – O importante é que todos estamos bem. Graças aos Sete Deuses.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Capítulo 3 - Touro



A força de um animal selvagem

Os humanos são movidos por desejo. Sem o desejo, ou mera curiosidade, sua perseverança padece. Mas o mais intrigante é que ao alcançar tal desejo toda a vontade de ter o que era desejado se esvai como fumaça. E então nasce o desejo por outra coisa que não possui. Por isso a felicidade é impossível aos seres humanos. Meio milênio atrás os celihs eram felizes. Tinham alimento abundante, tinham sua tribo na qual podiam viver e eram de fato felizes. Eles sabiam que eram felizes pois não tinham necessidade de desejar mais nada além do que tinham. Mas os humanos nunca estarão satisfeitos. Satisfação não é da sua natureza, desejo de satisfação sim.
Argonis fala para Minus que seu antigo amigo de infância, Kalays, agora é dono de uma taberna na qual poderiam descansar, beber e dormir. Então partiram os cinco pelas veredas da Floresta de Cedros enormes que dá o nome dessa província natal de Minus. Foram o caminho calados com exceção de Minus e Argonis que falam sobre algumas plantas que veem:
- Aquela é Conium maculatum. Mais conhecida como Cicuta ou abioto, da família das Apiáceas. Se você reconhecer o padrão da folha composta que parece ser recomposta nunca vai confundi-la com outra. E ó bom não confundir mesmo pois ela é muito venenosa. – Argonis explica.
- Os monges do Monastério Takshang usavam uma raiz que era venenosa, mas eles ferviam primeiro para as toxinas evaporarem. Se não me engano era Manihot esculenta.
- Sim. Sim. Conheço. É bastante nutritiva, Minus.
Esse assunto que era interessante apenas para os dois perdurou a viagem inteira até que finalmente viram uma construção de madeira com três andares.
- É aqui. – Apontou, Argonis.
- É grande! Meu amigo Kalays se deu bem. Será que sua irmã ainda está por aí.
- Claro. Ela vive com ele.
A porta está fechada então Minus a abre fazendo o som das dobradiças enferrujadas ecoar por todo o salão apenas para as mesas e cadeiras dos frequentadores do bar.
- Kalays. Seu porco nojento! Ainda come lavagem pela manhã?! – Logo após a provocação de Minus um homem muito gordo desce as escadas e abre um grande sorriso e os braços ao avistar Minus.
- Não pode ser? Os Sete Deuses não podem ter atendido as preces de um esquecido pelo mundo. – Logo ele chega e abraça Minus com força. – Mas se bem que depois de tanto tempo eu preferia que não tivesse mais atendido mesmo.
- Ora cale-se. Sei que me ama. – Diz, Minus, dando um soco no ombro de Kalays.
- Argonis, conseguiu encontrar a água ardente de gengibre que procurava? – Kalays é alto. Pouco menos que Minus, mas é muito gordo. Veja seu cabelo ruivo e sardas no rosto e seus pequenos olhos castanhos.
- Sim. Sim. Apesar de ter sido bastante cara.
- Quem são seus amigos, Minus.
- Claro. Estes são Zorf, Pigmaleão e N.
- É uma graça tê-los aqui. Os amigos de Minus são meus amigos.
- E Kalayne, sua irmã?
- Foi ao Mercado de Macao, mas volta amanhã. Ela ficará feliz em te ver. Mas sentem-se. Vamos beber e conversar. Hoje é por minha conta. Temos muito o que conversar, Minus.
- Eu sei que sim. Mas teria cuidado com esse aqui. – Minus aponta para Pig. – Ele bebe como um camelo do deserto. – Pig apenas sorri.
- Não tem problema. Vamos.
Kalays os leva até o balcão do bar e coloca quatro garrafas de Varis. Uma bebida feira a base de uma raiz chamada varissol. Em nenhum outro reino se bebe tanto Varis quanto no Reino do Leão.
- Este é o melhor Varis dos Cinco Reinos. Envelhecido e maturado.
Entre copos e corpos virados a noite cai também e logo podemos ver homens e mulheres, humanos e cultuadores da lua, soldados e mercenários, no bar todos eram apenas clientes. Com o tempo até mesmo Minus começa a sentir os efeitos do álcool em seu corpo e se vê sentado com N. ao levantar a cabeça já com um pouco de dificuldade vê uma tatuagem na parte interna do braço de N.
- Hoss, a marca do exilado. – N. Encolhe o braço tentando esconder.
- Sim. Como conhece ela?
- Só soube de um ser que a possuía. Nan Hyun. Que também gostava de ser chamado por N. Um Celih que foi espião duplo na guerra contra os povos livres. – Com os movimentos debilitados e a pálpebras pesadas ele levanta a visão abismado com o conhecimento de Minus.
- Triplo, na verdade.
- Como assim?
- Deixa pra lá. Odeio contar histórias.
- Promete que me conta outro dia?
- Prometo.
Alguns encapuzados entram no bar e são os primeiros a terem a presença estranhada pela maioria. N também nota a presença deles e comenta com Minus na esperança de mudar de assunto.
- Conhece-os? São Cultuadores da Lua Arcanos. Dizem que antes da guerra um cultuador chamado Taeni foi incumbido de guardar todo o conhecimento celih em uma arca e cuidar dela. Os seus seguidores então formaram os Cultuadores Arcanos para guardar a Arca da Sabedoria Celih. Mas a mairia dos celihs foi para as matas e formaram pequenas tribos e contaram estudando magia e outros conhecimentos antigos e por isso foram chamados de Cultuadores Tribais.
- Para alguém que não gosta de contar histórias até que você conta bem.
- São meus antepassados. Preciso saber.
- Mas Cultadores da Lua são raros. Não?
- Sim. – Começou a sussurrar. – Dizem que é impossível encontrar um celih puro. Dizem que todos foram mortos na última repulsão.
- Ainda existem repulsões?
- Todos fingem que não, mas mesmo os filhos de celihs e humanos como eu são excluídos de tudo. Na escola, nas virtudes, nas leis.
- Mas as leis não dizem que todo cidadão dos cinco reinos tem direito aos privilégios daqui independe da espécie, origem ou crença?
- Sim. No papel... – Eles são interrompidos por uma discussão entre dois soldados e suas esposas. Os dois estavam com suas armaduras do Exército de Guarda do Leão. Um ainda usava o elmo. Mas quem falou mais alto foi o que estavam sem elmo e possuíam uma barba cheia e negra.
- Sua vadia. Eu disse que beberia o quanto quisesse hoje. Acabei de chegar de uma incursão. Preciso me divertir às vezes...
- Do que você me chamou seu cachorro imundo? – Respondeu a mulher furiosa.
- Não briguem. – Intervém o outro soldado. Mas acidentalmente acerto o braço na mulher do soldado sem elmo. E a mesma saca a espada do marido.
- Ei! Sabe... Não deviam brigar nesse bar. – Minus joga o soldado que ainda estava de elmo com um só safanão como se fosse um boneco de panos. A mulher levanta a espada para Minus, mas ele desvia do golpe e desfere um soco em sua barriga fazendo-a cair de dor. A outra parte para cima de Minus também com uma espada, mas a espada é bloqueada por um som do encontro com algo que parecia outro metal ou pedra, mas na verdade a espada atinge o braço esquerdo de Minus e a mulher fica sem ação. Nesse momento, todos no bar já estão olhando para a briga.
- Que confusão é essa?! - Kalays chega da cozinha perguntando. - Minus joga a espada para longe e empurra a mulher com um chute e nesse momento o soldado que estava caído e outro já vem em direção de Minus com velocidade. Minus percebe e parte para cima dois também. Como um animai enorme, Minus carrega os dois nos braços como se seus braços focem enormes chifres, leva-os de encontro a porta abrindo-a com o impacto e logo eles se veem no chão da entrada da taberna com algumas costelas quebradas.
- O que tipo de demônio ou animal é ele?
- Vão embora. E digam ao Leão que ele é o próximo. – Todos no bar começaram a fazer algazarra e se perguntar:
- Touro
- É um touro
- Quem é ele?
- De onde é?
Pig, que já está muito bêbado, grita:
- Minus. O nome dele é Minus e é daqui mesmo de Cedros! Ele está comigo. – Solta uma gargalhada e todos voltam a beber e comemorar.

Hoss, a marca do Exilado.


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Capítulo 2 - Tutor


O sábio recluso

Essa época do ano é fria por aqui. Apesar dessa província ter a fama de ser quente podemos sentir um frio que só vem com o vento. Deve ser o vento úmido do oceano. O sol se esconde entre as nuvens e estamos caminhando com os quatro personagens que acabamos de conhecer. Não trocam muitas palavras a não ser alguns comentários de Pig aqui e ali sobre a vegetação e cogumelos.
- Estes aqui são incríveis. Vou levar alguns para o caso precise fazer uma “viagem”. Ouvi falar de uns que brilham no escuro. Imagina o efeito que causa. – Minus dá um sorriso de lado, mas ou outros o ignoram.
- Sabe que alguns podem matar, não é?
- Que nada. Experimenta um, garoto. Vai gostar. – Aponta o cogumelo amarelado na direção de N, mas ele o joga para longe com um safanão. – Ei! Isso é difícil de achar. Aposto que nem sabe a alegria que isso aqui causa.
- Não sou um garoto. Talvez seja mais velho que você.
- Só pode estar brincando. Quantos anos têm? – Apesar da ênfase, N prefere ignorá-lo. – Sabe o que é alegria, pequeno? – Insiste aproximando o rosto enquanto andam. Mas como o som de uma brisa rápida, logo sente um pé passar por baixo dele e já está no chão com o pequeno assassino em cima dele que aponta dois dedos para sua jugular e com a outra mão apontada logo a baixo do seu peito esquerdo.
- A primeira vez que matei alguém. Foi uma sensação incrível! A espada cortando fibra muscular, rasgando a pele frágil orgânica. O toque do metal em cada órgão. O olhar de uma alma abandonando um corpo. O pensamento do quanto aquela pessoa merecia morrer. Aquilo realmente me deixou alegre. Eu poderia mata-lo agora. Levaria menos de um segundo.
- Hêhê. Eu preferiria continuar vivo. Se não se incomoda. – Respondeu já com um suor frio a cair da testa.
- E se me incomodar?
- Hêhê...
- Há algo que pode incomodar mais. – Interrompe, Zorf. – O odor que sairá das calças dele se não parar de amedronta-lo. – N levanta-se e continua andando.
- Não há odor nenhum. – Pig se defende.
- Mais logo mais haveria.
- Claro que não. Não sou nenhum covarde. Seu grande... Urso fedorent....
- Ei! Ei! - Minus interrompe. – É ali.
- O que exatamente é “ali”? – Referem-se aquela cabana bem construída mais à frente entre as árvores. Parece aconchegante com uma varanda com uma cadeira de balanço a baixo de um lampião apagado. É um lugar bem decorado, limpo e forte.
Batem à porta e um senhor de meia idade com barba, cabelos e olhos cinzas os atende. Seus cabelos são curtos e veste um sobretudo verde e cinza que mais parece um pijama. O senhor corre até uma cômoda, pega uma arma de fogo e aponta para eles.
- Calma! Calma! Argonis-syr, sou eu. Minus.
- Como acreditaria nisso? Minus sumiu a muitos anos. Nem sei se está vivo. O que mais me intriga é conhecer esse nome. Por acaso....
- Sou eu. Quando foi me ensinar arco e flecha eu passei mais de dez sóis apenas para conseguir segurar o arco, mas no combate corpo a corpo derrubei um boi.
- Não pode ser.
- Aqui. – Minus o mostrou uma tatuagem no ombro direito.
- Minus? Não pode ser. – Disse ele abraçando-o. – Onde esteve?
- É uma longa história.
- Está tudo bem? Algum problema com seu braço? – Só então Pig e os outros se indagam do braço esquerdo que esteve enfaixado desde que o viram pela primeira vez.
Após calmos e sentados ao redor de uma lareira no meio da sala eles começam a conversar. E enquanto conversam vamos dar uma olhada. É um lugar bem estranho esse aqui. Temos duas estantes repletas de livro do chão ao teto uma mesa com muitos papeis e anotações, desenhos de flores, folhas e frutas. Desenhos humanos de corpos e órgãos. Perto da janela há um pequeno corredor que passa por um quarto com panos no chão e mais livros espalhados e no fundo da casa um forno a lenha e um caldeirão enorme no chão. Vamos voltar para à sala onde eles estão conversando e bebendo chá.
- Um monastério? – Argonis pergunta a Minus.
- Sim. Passei a maior parte do tempo lá. Conheci um ótimo treinador.
- Imagino que melhor que eu.
- Diferente. Vamos dizer assim.
- Então ele foi seu treinador. – Intervém, Pig.
- Não. Argonis era meu tutor.
- Mas pensei que somente pessoas da realeza ou muito importantes tivessem tutores. – Zorf diz.
- Bom... Isso não vem ao caso. – Minus tenta mudar de assunto. – Meu treinador sabia muito sobre a mente e o corpo. Era um cientista. Havia muita sabedoria naquele monastério. Mas por estarem deligados do mundo eles acabam sabendo pouco sobre o mundo aqui fora. Seu nome é Saitomo Masashi. Ele me contou de um antepassado dele que se chamou Miyamoto Masashi que foi o que chamavam de samurai que viveu no século XVI da primeira era humana. Muito antes da era Pré-Magnum. Ele me contou que esse samurai era muito habilidoso e foi o primeiro a usar duas espadas. Ninguém era páreo para ele. Eu li seu livro “O livro dos cinco anéis” que mostra as atitudes do samurai duelista.
- Incrível! Sabe que me interesso muito pela era Pré-Magnum. – Enquanto os dois conversam os outros ficam um pouco avulsos e apenas observam e ouvem sem entender nada.
- O que é a era Pré-Magnum? – Zorf Pergunta.
- Não foi para a escola? – Interroga, indignado, Argonis.
- Fui, mas não sou bom em decorar essas coisas de geografia.
- Não é geografia. A era Pré-Magnum foi o tempo que se decorreu antes da guerra dos humanos contra os povos livres. Há mais de 500 anos. Que foi quando Magnus, o Primeiro Rei-Mago, organizou nosso povo e lutou contra os selvagens que queria exterminar a humanidade. Desde então, seus sucessores são os Reis Anciãos. Foi assim com Magnus, Ignacius, Petrus até chegar ao Dominus Rei. Nosso atual Rei Ancião. Pouco depois o reino foi dividido em cinco reinos menores que respondiam ao que ficou sendo chamado de Rei Ancião, segundo a tradição. Aí vieram o Reino do Leão, da Garça, da Coruja, do Faisão e da Águia. - Certamente, um professor ensinando.
- Sabe, Argonis. Eu acabei descobrindo que não foi bem assim. – Minus olha para N que apenas fita o chão com um olhar indignado. – Mas depois lhe conto.
- Sim. Não entendo porque partiu. O que houve?
- Dominus Rei é descendente de Magnus? – Interrompe, Zorf, ainda perdido.
- Não. – Argonis ajuda com seu instinto docente. – Ele é comparado a Magnus em sabedoria, mas não têm o mesmo sangue.
- Nossa! Então ele é muito sábio! – Impressiona-se, Zorf.
- Para mim esse tal de Rei Ancião nem existe. Deve ser apenas o conselho ancião comandando e dizendo que ele está por trás de tudo. – Pig dá sua opinião.
- Como se atreve a falar assim do Rei Ancião? Dizem que ele tem ouvidos e olhos em todos os lugares. – Zorf fala indignado.
- Aqui certamente ele não tem. Caso contrário não teria uma arma de fogo. Já que foi proibida há muitos anos. – Argonis fala apontando para arma que há pouco ameaçava a vida deles e agora repousa no canto.
- Ah! Por isso dizem que ele tem o poder do primeiro Rei-Mago. Ele deve ser poderoso.
- Bom. Para ser Rei Ancião deve-se ser o mais sábio e forte dos Cinco Reinos. Então ele deve ser excepcional. – Argonis confirma. – Tive honra de conviver com ele por anos até que Minus...
- Sabe... – Minus interrompe a fala de Argonis. – É bom que tenham entrado no assunto do Rei Ancião.
- Sim. Estou gostando de falar sobre isso. – Concorda, Argonis com um sorriso.
- Não. Não é por isso. – Argonis desfaz seu sorriso. – Lembram-se que comentei que há alguém que quero matar?
- Sim. – Pig responde por ele, Zorf e N.
- Pois bem. É dele que estamos falando.
- Como... Assim? – Pig interroga já entendendo.
- Nós vamos matar o Rei Ancião, Dominus Rei.